nº 1
Inescrupulosamente sonho com aquilo que não posso ter como se o mundo todo coubesse naquela gota de pimenta que escorre dos seus olhos quando você os fecha pra sorrir. Todas as palavras agora estão vazias porque nada mais fará sentido até que nos tenhamos. Eu quero parar de dar atenção a essa tristeza que tem o seu sorriso e ao seu jeito extrovertido de quem acabou de descobrir o mundo. Eu quero não ter que falar com você, não ter que te ver, porque você só me faz mal.
Nada em você me atrai além da sua ironia idêntica a minha e dessa inteligência que me arranca aquilo que não quero sentir nem dizer. Você é a minha preguiça de correr atrás do que eu quero e a vontade de me entregar sem ressalvas a quem me quer e ainda assim consegue ser tudo aquilo que eu critico, tudo para o que eu não tenho a menor paciência.
Tudo o que você quer é ter uma amiga fora da rota convencional casa-trabalho e tudo o que eu quero é ter alguém com quem ser íntima e sincera sem ter que dar satisfação, sem ter que bater cartão. Nós queremos nos ver nos olhos de alguém e ter aquele apoio moral no lugar inóspito em que nos encontramos. Somos assim a dupla perfeita, desejando e buscando, quase como dois bandidos, aquilo que nos é vetado por lei.
Sabe o que me prende ainda a isso que eu sei que é tão sem sentido? É a sua forma quase sem rodeios de quem já apanhou da vida e de quem já viveu sozinho mais tempo do que devia. É o seu jeito “eu vou sem medo” de quem era o último a ser escolhido para o time de futebol do colégio e conquistou esforçado e sozinho a segurança que tem agora. Eu me identifico com o seu jeito “ex-looser” de ser, porque é isso que eu quero ser quando crescer e esse é o único porque de eu ainda te deixar chegar perto, de inventar mil desculpas para o mundo pra gente se olhar mais de perto só as vezes. Desta vez não é a minha vaidade e nem é a minha carência que permite esses absurdos todos. É só a promessa de que um dia, como você eu vou crescer e batalhar pela minha vida, pra construir minha própria família ao invés de assistir pela TV a família dos outros. Com você “THE BLOWERS DAUGHTER” tem feito muito mais sentido porque eu não consigo tirar meus olhos do que eu idealizei ser você e contigo acontece o mesmo, apesar de sabermos que não vai acontecer.
Amargo. Doce. De tão incongruente não é. A personificação de todos os meus erros, dos meus vícios... de tudo o que eu não posso. Eu poderia agora acusa-lo, julga-lo, condena-lo e executa-lo mas não o farei. Apenas porque sei que sou eu que não me ajusto, porque é em mim que estão os erros e a culpa. Se fosse possível, eu nunca encontraria afeição em meio coração mas eu sempre encontro. Se não fosse tão burra não me identificaria tanto com apenas o jeito de olhar, as palavras que eu leio enquanto mostro até meus sisos, eu não me envaideceria com aqueles elogios. Eu não queria ser viciada em xícaras de chá quentinho, em conversas longas sobre nada. Eu luto todo dia pra diminuir as piadinhas que não trazem apenas diversão. As vezes eu me firo e o resto do tempo eu passo tentando me curar, porque todas as vezes em que eu permito a entrada de alguém na minha vida, é certo que vou me decepcionar. Não diga então, que eu só escrevo coisas tristes. Porque é esta tristeza que escorre pelos meus dedos enquanto eu digito uns 200 clichês que me liberta de ter que sangra-la enquanto falo com meus amigos, enquanto abraço aqueles que eu amo. Estou sim, louca e revoltada, descontente com tudo aquilo que eu tenho feito, com as medidas que tenho tomado pra me livrar de confusão. Eu olho com outros olhos todos aqueles que se aproximam, eu espero em silencio até encontrar um ambiente seguro e em seguida eu me agarro tão profundamente a essa fonte de aparente segurança que quando ela sai, me sai também o chão e a orientação. Eu me odeio por me entregar tão profundamente a ponto de cair sozinha sempre. Eu me odeio por ter estado tão perdida por horas, experimentando todo o meu guarda-roupas, enjoada e zonza de tantos anestésicos e ter saído de casa e ficado em silêncio, por ter mentido e dito a verdade, sempre em momentos inoportunos. Eu tenho um amigo que sempre pega as minhas mentiras, e eu acho isso lindo. Ele não precisa de mais que um segundo pra entender que eu não estou bem e se chateia quando eu minto. Mas como eu poderia dizer a verdade, como eu poderia rasgar a minha alma diante dele e mostrar meus temores ocultos se ele não pára mais do que aquele segundo diante de mim? Se um dia eu tivesse coragem de dizer o que se passa comigo, se briguei feio com minha irmã antes de sair de casa, se estou sem forças pra fazer o que eu mais gosto, ele já provou que não tem tempo, paciência ou estrutura pra me ajudar a resolver a situação. O que adianta a ciência da minha dor se ele não tem ombro? E isso é uma cilada, porque em outro lugar, distante e sombrio, eu encontrei alguém que me escuta, me diverte, que me dá mais atenção e carinho do que é justo, do que devia. E esse alguém, que é amargo e doce, que não é pra ser, consegue por alguns segundos me fazer esquecer dos motivos do meu descontentamento, consegue me fazer sentir culpada por escrever este texto mal escrito, que se fosse editado daria quatro ou cinco histórias inteligíveis, e mais ainda por publicá-lo, desformatado e na marra, apenas pra que se faça vista toda essa angústia que palpita aqui dentro, que é mais forte até do que o que me envergonha. Eu vejo minha avó dizendo que eu não preciso virar Silva como sugeriu meu gastro, diante do molho vermelho e dos queijos exigidos pelo meu sobrenome italiano... ela sugeriu que eu pegasse o dela, um Bloise francês e bonito. Um comentário tão simples de alguém que já viveu tanto e não viveu nada do que eu vivi. Eu não posso me exigir as palavras certas hoje, porque eu só tenho 20 anos, eu não sei nada. E quero morrer mil vezes ou até que eu consiga parar de complicar as coisas, até que eu ignore os meus pensamentos, até que eu vista a camisa da caridade e até que eu seja o que eu acho correto ser.